À conversa com / Talking with António Madureira

O Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra recebeu o arquitecto António Madureira para uma conversa com os estudantes. No seu desenvolvimento viria a apresentar o projecto produzido em co-autoria com o arquitecto Álvaro Siza Vieira. A conversa decorreu tranquilamente, na Capela do edifício do Departamento, no dia onze de março de 2013, sendo o tema central a Casa de Sintra, projecto produzido entre 2002 e 2007.
A habitação localiza-se na serra de Sintra, numa falda que se vira para o mar, um lugar que segundo António Madureira é “fantástico”. O orador começou por explicar que o levantamento topográfico inicial estaria errado e que numa primeira fase existia um projecto para o lugar da autoria de um arquitecto dinamarquês, que em nada corresponde ao que actualmente se pode observar. Antes de entrar nos pormenores e no desenvolvimento do projecto em si, o arquitecto António Madureira fez varias vezes referência à disponibilidade do cliente: “não há boa arquitectura sem bons clientes”. A cedência de fotos aéreas do terreno disponível ao longo dos anos, por parte do Engenheiro Alemão, foi crucial para o entendimento do espaço em que o projecto se viria a desenvolver.

Até aos anos sessenta a zona era plantada por vinhas, sendo que este cultivo acabou nos anos setenta. Visto a encosta estar virada para os ventos dominantes, canas e acácias permitiam a sua protecção. Quando a plantação das vinhas deixou de existir, o solo foi tomado pelas acácias, deixando um terreno desorganizado. Esta foi a imagem que Siza Vieira viu quando visitou o lugar pela primeira vez.

Os primeiros esboços de Álvaro Siza, não pareciam totalmente esclarecedores das suas intenções, pelo que o cliente se mostrou um pouco reticente, mas com o continuar do processo as dúvidas dissiparam-se, havendo total confiança no arquitecto. O desenho em Siza é, como sabemos, um ponto fulcral no seu estudo da obra, pelo que a planta final mostra muitas semelhanças com esquiços iniciais da obra. O desenho foi tomado ao longo do trabalho como forma de resolução de detalhes. A entrada é um destes exemplos, adquirindo um carácter fechado, ao contrário da ideia inicial.

O projeto desenvolve-se em torno de várias problemáticas. O facto de o terreno ser na serra de Sintra leva a que a delimitação da propriedade não possa ser feita por muros e cercas, sendo estas reduzidas e bem estudadas.

O projeto desenvolve-se em torno de um corredor grande e irregular pontuado por luz natural. Este percurso no interior faz a ligação entre as várias dependências. O corredor consegue ser mais do que esta simples designação, tornando-se muito útil e, segundo António Madureira “interessante do ponto de vista dinâmico”. A garagem surge mais tarde em relação ao projecto inicial.

No projeto desta casa houve tempo, tempo necessário para se apurar os pormenores, feitos com delicadeza. A construção de uma outra casa de madeira no terreno, para servir de residência temporária ao longo deste tempo de construção da casa, veio sublinhar ainda mais a duração do processo. Nota-se ainda uma forte paixão pelo terreno, quando se tenta repor em volta tudo o que existia através da casa final.

A casa é revestida em madeira e pedra, o que levou a um estudo profundo de um sistema construtivo que não se conhecia. A maqueta acabou por ganhar neste ponto do projecto uma importância significativa, mostrando que o sistema afinal seria relativamente simples.

A Casa de Sintra remete-nos para um tema geométrico recorrente, o desenho dos espaços através de uma regra modular. O projeto não foi criado pela regra, mas esta surge em consequência do primeiro. António Madureira chega a afirmar: “a regra torna-se método de orientação e não de sistematização”.

A segunda parte da conversa deu oportunidade aos estudantes de colocarem questões sobre esta e outras obras do arquitecto Siza Vieira. Aqui vários temas foram discutidos, inclusive alguns escritos sobre o arquitecto e a sua obra por outros autores, ou citações do próprio arquitecto Álvaro Siza Vieira.



The Department of Architecture of the University of Coimbra hosted architect António Madureira for a talk with the students. In its course, he would come to present the project made in co-authorship with architect Álvaro Siza Vieira. The talk ran smoothly, in the Chapel of the Department building, on March 11, 2013, and the focus was the Sintra House, design produced between 2002 and 2007. 

The house is located in the hills of Sintra, in a hillside facing the sea, a place which according to António Madureira is "fantastic." The speaker began by explaining that the initial survey was wrong and that initially existed a project for the place designed by a Danish architect, which in no way corresponds to what can be seen today. Before going into the details and the development of the project itself, António Madureira referred ​​several times to the client's engagement: "no good architecture without good clients." Lending aerial photographs of the site over the years, by the client, was crucial for the understanding of the space that the project would later develop.

Until the sixties the area was planted with vineyards, and this cultivation ended in the seventies. Since the hillside faces the prevailing winds, reeds and acacia trees enabled their protection. When the winery ceased to exist, the land was taken by acacia trees, leaving a disorganized field. This was the image that Siza Vieira saw when he visited the place for the first time.

The first sketches of Álvaro Siza, seemed not totally enlightening of his intentions, by which reason the client showed somewhat reluctant, but over the continuing process doubts dissipated, turning out as a complete trust in the architect. The drawing for Siza is, as we know, a main focus in his study of the work, so that the final plan shows many similarities with the initial sketches of the work. The drawing was taken throughout the work as a way of resolving details. The entrance is one example, acquiring a closed nature, unlike the original idea.

The project is developed around several issues. The fact that the site is in the Sintra mountains leads to the fact that the limits of the property can not be made by walls and fences, which were reduced and well researched.

The project is developed around a large and irregular hallway punctuated by natural light. This indoors pathway connects the different premises. The corridor manages to be more than this simple description, becoming much useful and, according to António Madureira "interesting from the dynamic point of view." The garage comes later with respect to the original project.

In the design of this house there was time, time needed to investigate the details, made ​​with delicacy. The construction of another wooden house on the grounds to serve as a temporary residence during this time of construction of the house, has highlighted further the duration of the process. A strong passion for the site, when trying to restore back all that existed via the final house, is further noted.

The house is clad in wood and stone, which led to a deep study of the constructive system which he did not know himself. The model went on to win, at this point of the project, great importance, showing that the system would be, after all, fairly simple.

The Sintra House leads us to a recurrent topic geometric, the design of the spaces through a modular rule. The project was not created by rule but the later emerges as a consequence of the former. António Madureira even states: "the rule becomes orientation method and not systematization method."

The second part of of the talk gave students the opportunity to ask questions about this and other works by Siza Vieira. Here, various topics were discussed, including some of the writings on him and his work by other authors, or quotes from Alvaro Siza Vieira himself.